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Calçando o Brasil e o mundo

A história da indústria calçadista brasileira é tão antiga quanto cheia de desafios. Com as primeiras fábricas nascidas no Rio Grande do Sul, como forma de abastecer o Exército Brasileiro com coturnos de couro para a Guerra do Paraguai - 1864 a 1870 -, o setor logo cravou suas raízes por todo o País. Na época, a produção de calçados era basicamente artesanal e se dava muito mais por uma demanda local do que nacional, sem apelos de moda. Com a primeira fábrica formalizada em 1888 em Novo Hamburgo/RS, foi a partir de meados do século passado que a atividade passou a se desenvolver de fato, especialmente a partir das primeiras exportações. A primeira que se tem registro data de 1968, quando a Strassburguer, de Novo Hamburgo/RS, embarcou o equivalente a US$ 4 milhões para os Estados Unidos. 

Hoje sendo o quinto setor industrial que mais emprega na Indústria da Transformação brasileira, a atividade gera mais de 250 mil postos de trabalho diretos em 600 municípios do País, sendo que em 20% destes representa mais de 50% do emprego industrial gerado. O calçado brasileiro, aprimorado pelos anos e pelo desenvolvimento tecnológico, também está nos pés de consumidores de mais de 160 países em todo o planeta, sendo desejado e reconhecido internacionalmente. 

Quinta maior produtora do mundo, a maior fora da Ásia, a indústria calçadista brasileira, apesar dos percalços, segue como um importante vetor econômico e social do País. Essa história de sucesso, no entanto, não seria possível sem empresas sólidas espalhadas nos quatro cantos do Brasil. Destacamos cases de alguns dos principais polos calçadistas brasileiros e que contam um pouco da história desse segmento que calça não somente o Brasil, mas boa parte do planeta.


Calçados Jacob: das agruras da Guerra ao sucesso

Foi no polo calçadista do Rio Grande do Sul, mais especificamente em Novo Hamburgo/RS, que nasceu uma das mais tradicionais indústrias de calçados em atividade no País, a Calçados Jacob, produtora da marca Kildare. Criada em 1928, sob o nome de Jacob & Cia, a fábrica era dirigida por Kurt Jacob, que tinha como sócio Adolfo Jaeger, e produzia sandálias conhecidas pela marca “Cruzeiro”. Naquele início de atividades, os desafios foram além dos econômicos. 

No período pré Segunda Guerra Mundial houve até mesmo perseguição a Kurt Jacob por este ser alemão. Chegaram a ir na sua casa para retirar seus bens, mas três meses antes da declaração da Guerra ele tinha ganho a cidadania brasileira. Apesar dos imbróglios políticos de um tempo turbulento da história mundial, no final dos anos 1930 a empresa já contava com cerca de 150 colaboradores e já era reconhecida em todo o País.

Hoje com 450 funcionários, a empresa atua em 30 países, com destaque para Austrália, Oriente Médio, África, Europa e Estados Unidos, e é administrada pela terceira e quarta gerações da família Jacob. “Atualmente, estamos muito focados em entregar coleções atrativas para os homens, que possam trazer um sentimento de bem estar e de estilo, para os vários momentos de consumo que ele possa experimentar. Queremos estar presentes e estimular os novos homens a encarar com autoestima e determinação as suas jornadas”, comenta o gerente geral de vendas da empresa, Marcos Nascimento.

Entre os desafios contemporâneos, o gerente destaca o ambiente econômico instável em nível global, passando pelo ambiente de concorrência intensa e de muitas ofertas, até a forte inflação das matérias-primas. “São efeitos diretos da pandemia de Covid-19”, frisa. Segundo ele, hoje os canais de distribuição e o acesso à informação, dão ao consumidor uma vasta oportunidade de escolha qualificada. “São muitas marcas, estilos, produtos substitutos e formas de comprar. Conseguir a atenção desse consumidor é o que deixa o mercado de calçados tão desafiador. A forte mudança nos comportamentos de consumo, exponenciada pela pandemia, exige coragem, velocidade, flexibilidade e robustez de caixa para poder se adaptar a esse novo ambiente”, avalia, acrescentando que a empresa adotou uma postura de extrema cautela, embora exista uma retomada importante identificada no segundo semestre de 2021.


Calçados Wirth: de Dois Irmãos para o mundo

O compromisso de oferecer qualidade e elegância para os pés femininos é seguido à risca pela Calçados Wirth desde 1948. A calçadista gaúcha foi fundada por três sócios em Dois Irmãos/RS e os primeiros sapatos foram fabricados por uma equipe de 15 funcionários. A produção diária que, no início, era de 40 pares/dia, cresceu. Atualmente com 1,1 mil colaboradores, a calçadista produz aproximadamente 7 mil pares/dia.

Diretor da Wirth, Ricardo José Wirth, conta que os principais desafios encontrados no início estavam relacionados à abertura da empresa. “Construir uma indústria a partir de poucos recursos, conseguir crédito para investimentos e capital de giro, além de conquistar mercados e treinar a mão de obra estavam entre as dificuldades enfrentadas”, fala Wirth, ao dizer que nos tempos atuais, os desafios permanecem e se renovam permanentemente.

Entretanto, o contexto é outro. “A empresa alcançou estabilidade e solidez econômica, adquiriu know how de tecnologia e produção, boa imagem no mercado, fatores importantes para manter sua atividade.” Ao longo dos 73 anos da empresa, a Wirth expandiu para o interior do município, onde hoje são os municípios emancipados de Santa Maria do Herval e Morro Reuter. “Sempre tivemos grande identificação com estas comunidades, onde a mão de obra é de muito boa qualidade.” Presente em mais de 50 países, a exportação representa atualmente cerca de 80% da produção da empresa.

A redução no consumo de calçados no ano de 2020 em função da pandemia de Covid-19 resultou em uma queda de 20% na produção ante 2019. A expectativa é de que já no próximo ano a empresa esteja operando nos níveis pré-pandemia.


Calçados Ala: identidade com o polo catarinense

Subindo do Sul brasileiro, paramos em Santa Catarina, onde o polo de calçados femininos de São João Batista vem ganhando notoriedade desde a década de 1990, quando a cidade deixou o título de Capital do Açúcar para se tornar a Capital Catarinense do Calçado.

Há mais de 35 anos no mercado, a Calçados Ala é uma das mais importantes representantes do polo catarinense. Hoje com uma produção de mais de 210 mil pares mensais, a empresa projeta um crescimento de 10% até o final de 2021, embalada pela retomada do mercado interno e das exportações, hoje presentes em mais de 30 países.

O diretor comercial da empresa, Jonatha dos Santos, ressalta que além de fabricar as marcas próprias (Ala e Zatz), a calçadista produz para mais de 500 marcas de calçados. Com 800 funcionários, Santos destaca que a empresa prima por mão de obra da região, o que fortalece ainda mais a identidade com o polo calçadista local. Segundo o diretor, o ano de 2020 foi bastante complicado para a empresa, que vinha em uma crescente até 2019. “A recuperação já vem sendo sentida em 2021 e deve se consolidar no próximo ano”, projeta, ressaltando que a empresa embarca seus produtos para 30 países, o que ajuda a diminuir os riscos inerentes à sazonalidade das vendas no Brasil. No mercado internacional, conta Santos, o destaque é para o Reino Unido, Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos e países da América Latina.


Democrata: a excelência do calçado masculino

Outro polo tradicional do setor calçadista brasileiro é o de Franca, em São Paulo. Reconhecido historicamente pela produção de calçados masculinos de excelência, o polo iniciou seu desenvolvimento em meados dos anos 1950, tendo alcançado sucesso no mercado internacional a partir da década de 1970.

Fundada em 1983 em uma garagem e com apenas três funcionários, uma das mais tradicionais indústrias de calçados masculinos do País, a Democrata é uma das principais representantes do polo francano. “A expertise da Democrata está concentrada no atendimento ao público masculino, porém não descarta intenções futuras em atender também o público feminino”, conta Anderson Melo, gerente de exportação da empresa, lembrando que entre 2014 e 2017 a empresa chegou a produzir calçados femininos no modelo private label – marca do cliente – para exportar à França, Itália e Rússia.

Melo conta que atualmente a marca produz mais de 11 mil pares diários, mais de 250 mil pares todos os meses. “O principal volume está direcionado ao mercado interno, onde comercializamos 80% da produção. Com relação às exportações, temos uma distribuição bem pulverizada e que atende mais de 60 países, sendo os principais volumes servidos aos Estados Unidos e América Latina”, comenta Melo, ressaltando que a marca tem foco permanente no aumento de mercados internacionais.  Segundo Melo, em 2006, a exportação da marca atingiu 55% da produção total, número favorecido pela combinação da excelência do produto, oportunidades internacionais e o câmbio favorável. 

O ano de 2020, assim como para o setor como um todo, foi muito difícil para a Democrata. O gerente lembra que a empresa precisou paralisar suas atividades em março em função das restrições da pandemia de Covid-19, reiniciando parcial e gradualmente a produção em junho. “Hoje, no entanto, estamos a todo vapor, recuperando perdas causadas pela pandemia e com foco em superar os números de vendas e produção de 2019, que é derivado de crescentes anteriores”, conclui. 


Mariotta: mercado em expansão

Desenvolvido a partir da década de 1980, o polo de Jaú é, em São Paulo, o oficial representante dos calçados femininos. Com 35 anos de atividade, a Mariotta é uma das principais produtoras do polo calçadista do polo paulista. Na sua fundação, assim como a maior parte das calçadistas brasileiras, possuía uma produção tímida de apenas 14 pares de sandálias de couro diários, algo em torno de 320 pares por mês. Hoje produzindo mais de 4,5 mil pares de sapatos femininos variados diariamente, mais de 100 mil pares por mês, a empresa emprega 220 pessoas e enxerga novos desafios. “Quando fundada, a Mariotta tinha uma grande perspectiva de crescimento, especialmente porque tínhamos um grande mercado interno e uma concorrência menor”, conta o gerente comercial da empresa, Marcus Barrientos.

Segundo Barrientos, com o tempo - e o aumento da concorrência - o desafio foi manter um equilíbrio maior entre o atendimento ao mercado interno e externo, o que a empresa soube realizar. “A pulverização das vendas ajuda muito na redução de riscos diante de crises, como a provocada pela pandemia do novo coronavírus”, conta, ressaltando que hoje a exportação representa 20% da produção, mas que o objetivo é chegar a 30% até a metade do ano que vem. O incremento no mercado externo, segundo Barrientos, deve se dar a partir do aumento das parcerias com distribuidores, o que já ocorre em mercados latino-americanos.

A Mariotta, apesar da estrutura de excelência, não passou incólume diante dos impactos da Covid-19. “O ano passado foi terrível. Com muita dedicação, reorganizamos o negócio e conseguimos sobreviver”, recorda Barrientos, ressaltando que a queda produtiva chegou a 40%. “O impacto se deu, sobretudo, pelo mercado interno, onde vendemos mais de 80% da nossa produção”, acrescenta. Apesar do susto de 2020, Barrientos olha com otimismo para o futuro. Para ele, no ano de 2021 já foi recuperada boa parte das perdas do ano passado. “A nossa perspectiva para o segundo semestre, embaladas pelo Natal, são muito boas”, projeta o gerente, ressaltando que a meta é, até metade de 2022, estar nos níveis pré-pandêmicos, em 2019. “A pandemia acabou fazendo com que muitas empresas ficassem pelo caminho. Ao mesmo tempo em que temos um mercado mais amplo para trabalhar, temos essa dificuldade da retomada. Acreditamos que a situação vá se regular somente nos próximos anos”, avalia o Barrientos, destacando ainda a elevação dos custos desse período pós-pandemia.


Pampili: inovação e conforto para as meninas

Conhecido por ser a Capital Nacional do Calçado Infantil, Birigui, no interior de São Paulo, começou o seu desenvolvimento como polo calçadista a partir da década de 1960. Empresários da época relatam que a escolha pela produção do segmento infantil se deu por dois fatos: a concorrência menor, já que os polos do Estado atuavam ou no segmento masculino ou feminino, e a necessidade menor de recursos financeiros para a produção. Deu certo e o polo se consolidou nacionalmente a partir da década de 1980.

Uma das empresas mais tradicionais do polo é a Pampili, criada em 1987. Fundada pelo casal Maria e José Roberto Colli, a empresa começou com cerca de 12 colaboradores e uma produção diária de 80 pares por dia. O primeiro produto fabricado foi uma sandália unissex. Filho dos fundadores e diretor da Pampili, Diego Colli revela que a marca Pampili começou a ser desenvolvida no segundo ano da empresa. O primeiro calçado foi um modelo de festa, rosa, de verniz, com um laço. Após o lançamento, a marca foi registrada e a calçadista se dedicou ao propósito de calçar os passos de todas as meninas. Apesar do contexto econômico conturbado, que inclusive foi um dos principais desafios do início da empresa, a Pampili se desenvolveu rapidamente. 

A inovação e a busca por novidades para apresentar ao mercado faz parte da filosofia da empresa desde o início. A Nação Pampili é composta pelas marcas: Pampili, Pampili Mini e Tweenie. O sucesso no mercado brasileiro levou a empresa a conquistar os pés de meninas de praticamente todos os continentes. Presente nos mais diversos países, a empresa também opera em negócios de varejo com marca própria em países como Angola, Argentina, Emirados Árabes Unidos, entre outros. “Olhar a nossa trajetória é sempre muito gratificante. A qualidade em cada detalhe, acabamento e conforto são a base de criação para cada produto confeccionado por nós. É a melhor maneira de materializarmos o nosso propósito em produtos que surpreendam e encantem nossas meninas e seus familiares”, finaliza Colli.


Stir: direto da terra dos esportivos

Conhecido pela produção de calçados esportivos, o polo de Nova Serrana, em Minas Gerais, ganhou notoriedade a partir da década de 1990, mas iniciou as atividades muito antes. Com dificuldades para o plantio, pois o solo não era propício para a agricultura, a cidade desde sempre encontrou na indústria de calçados uma forma de desenvolvimento. A tradicional marca Stir está no polo de Nova Serrana desde 1973, quando surgiu como uma empresa famíliar na qual cinco funcionários produziam 15 pares de tênis por dia, em torno de 345 por mês. Quase 50 anos depois, com mais de 180 colaboradores, a produção passou para 3 mil pares diários, quase 70 mil por mês. 

O diretor comercial da empresa, Rogério Alves, conta que no princípio a produção era artesanal, sem tecnologia em maquinário e apelo de moda, o que mudou com o passar dos anos e aumento da concorrência. “Hoje em dia, o grande desafio é estar sempre antenado ao ritmo da moda, as constantes mudanças de cenários e produtos e ter uma coleção que atenda os anseios de visual, conforto e tecnologia, tudo alinhado a um preço competitivo”, avalia. 

O sucesso no mercado brasileiro impulsionou a empresa a buscar voos mais altos, além-fronteiras. Ainda que com poucos volumes embarcados, especialmente para a América do Sul, a Stir se associou à Abicalçados neste ano com o objetivo de aumentar as exportações dos seus produtos. Hoje as exportações respondem por cerca de 3% da produção, número que a empresa quer elevar para 10% nos próximos anos. 

O ano de 2020, segundo Alves, trouxe uma queda de 20% para a empresa, isso porque houve crescimento no mercado digital da empresa, caso contrário o estrago seria pior. “O mercado hoje traz os desafios de se recuperar da crise do novo coronavírus. Além da necessidade de as pessoas terem que ficar em casa, o comércio calçadista ficou vários meses fechado e restringido nesta pandemia. O impacto foi enorme”, diz. No ano corrente, a recuperação está vindo, mas devagar. “Em 2021 crescemos cerca de 10% ante o ano passado”, diz, ressaltando que, apesar de todas as dificuldades, 2021 tem sido um ano de recuperação e de uma nova realidade do mercado, com maior valorização do polo calçadista local pelas empresas e pelos consumidores mineiros. 


Batatinha: fugindo do óbvio

Foi dessa forma que a Batatinha se destacou no polo dos calçados esportivos. A então Calçados Wagner foi fundada em 1970 nos fundos da casa dos avós de Iago Silva Coelho Assis. Diretor da Batatinha Calçados, Assis conta que no início, a calçadista se dedicou à produção de calçados colegiais femininos e quando a segunda geração entrou no negócio, o foco mudou. “Foi quando demos um salto. Em 1988 nasceu a marca Batatinha e toda a produção foi direcionada para o infantil”, conta, ao dizer que a capacidade produtiva da empresa é de 700 mil pares por ano.

Com cerca de 100 colaboradores diretos e 40 indiretos, a Batatinha está ligada à emancipação da cidade de Nova Serrana. “Meu bisavô foi um dos emancipadores do município e pelo fato de sermos de Nova Serrana fundamos a empresa aqui”, comenta, ao dizer que o polo hoje tem cerca de mil indústrias de diversos segmentos. “Entre os diferenciais, a qualificada mão de obra, a ampla variedade de serviços terceirizados e os fornecedores. Outro ponto positivo é que todos se ajudam no polo e nos adaptamos rápido.”

A velocidade da moda, bem como de lançamentos tecnológicos, são alguns dos desafios atuais apontados pelo diretor. “Percebemos que muita coisa com relação ao maquinário mudou bastante e vai continuar mudando. Essas tecnologias diminuem o custo da produção e possibilitam novas maneiras de vendas”, afirma. Com 5% da produção voltada para a exportação, a calçadista pretende ampliar esse percentual. “No exterior, nossos principais mercados são os países sul-americanos. Queremos ter uma porcentagem maior até para não ficarmos tão dependentes do mercado interno”, comenta Assis, ao falar que a empresa projeta crescer 20% este ano. “E assim começamos a recuperar as perdas de 2020. Apesar das dificuldades do ano passado, mantivemos nossa meta, estipulada em 2019, de dobrar o faturamento em 2024. Para isso, esperamos crescer 45% em 2022 para então voltarmos ao patamar de 2019.” 

Com relação a investimentos futuros, a Batatinha pretende investir em mão de obra e realizar investimentos pontuais de maquinário na produção.


Irá Salles: brasilidade e consciência

A Bahia, apesar de contar com uma indústria calçadista pujante, não é considerada um polo calçadista pelo fato de ter a produção bastante pulverizada no Estado. Dada a importância, no entanto, a equipe do Abinforma conversou com uma empresa nativa de Salvador, a Irá Salles. Com apelo da brasilidade, a empresa nasceu em 1999 e desde já passou a conquistar o público mais antenado em moda e design autoral no Brasil e no mundo. Com uma produção única de 500 peças entre bolsas, sapatos e acessórios, a Irá Salles possui um ateliê com 10 pessoas, que desenvolvem obras para serem produzidas em parceria com artesãos locais. “Quando iniciamos o processo de criação damos preferência às comunidades locais, gerando renda e economia para essas mulheres”, conta a designer Irá Salles, proprietária da marca, que tem orgulho de dirigir a única grife verde-amarela a fazer parte do acervo do maior museu de bolsas do mundo, o Tassen Museum of Purses and Bags, de Amsterdã/HOL.

O cuidado na produção, que trata os produtos como obras de arte, também se reflete na consciência ambiental. Segundo Irá, a empresa escolhe materiais sustentáveis, buscando fornecedores com selo de qualidade e que demonstrem preocupação com o meio ambiente. “A filosofia é incorporada em todo o processo e na nossa forma de trabalhar e se relacionar com nosso consumidor, orientando e conscientizando sobre um consumo melhor”, conta. 

A excelência da Irá Salles não fica somente no Brasil. A designer conta que, atualmente, cerca de 20% dos produtos são exportados para países da Ásia e também Estados Unidos. Com um nicho de mercado diferenciado, Irá conta que a marca não sofreu tanto em função da crise provocada pela Covid-19, tendo terminado o ano com resultados muito semelhantes aos aferidos na pré-pandemia. “O ano de 2021 já revela um aumento de cerca de 50% em relação ao ano passado dentro do mercado nacional, muito impulsionado pelas vendas digitais”, comemora Irá. 


Samara Calçados: tradição no Nordeste brasileiro

O polo calçadista da Paraíba se desenvolveu fortemente a partir da década de 1990, com a migração de fábricas do Sul em busca de incentivos fiscais concedidos pelos sucessivos governos. Mas foi uma empresa nativa que chamou a atenção da equipe do Abinforma. Na terceira geração da família, a Samara Calçados foi fundada em 1977, em João Pessoa. A empresa, que começou com quatro funcionários produzindo calçados infantis, conta atualmente com três unidades produtivas, localizadas nas cidades de João Pessoa, Campina Grande e Serra Redonda. Diretor e neto de um dos sócios fundadores, José Saad Rached Neto conta que a empresa teve um crescimento muito rápido. “Começamos com uma linha que não tinha montagem, cola, nada disso. Fazíamos sapatos só na costura e logo depois fomos crescendo e incluindo novos produtos, como uma sandalinha forrada.”

Atualmente, a calçadista trabalha com três marcas infantis: Samara Calçados, Be & Bi e Pimpopé, cada uma voltada para um nicho diferente. O também diretor da empresa, José Saad Rached Filho, conta que para ampliar a linha de produção, uma viagem ao Rio Grande do Sul foi realizada com o objetivo de conhecer fornecedores, porque no início não existia cadeia de suprimentos na região. “Ficamos uma semana no polo gaúcho e, a partir daí, começamos a produzir linhas diferentes. E esse acesso aos fornecedores foi, justamente, um dos maiores desafios que encontramos no início.” Na visão dele, a forte concorrência é, atualmente, o maior desafio enfrentado pela empresa. “Muitas empresas diversificaram suas produções e entregam todos os tipos de produtos.”

Neto conta que a Samara Calçados, quando estava buscando cidades para a expansão da empresa, levou em consideração a proximidade entre as unidades fabris. “Como nossa família é da Paraíba, a empresa, naturalmente, foi criada em João Pessoa. E concentrando as unidades na Paraíba conseguimos nos deslocar facilmente de uma cidade para a outra”, salienta, ao dizer que a calçadista ainda não recuperou as perdas obtidas no ano passado. “Temos uma capacidade ociosa ainda. Nosso plano para os próximos meses é o de recuperação desta capacidade para então voltarmos a planejar o investimento em alguns maquinários”, conclui Neto. 


Via Malibu: entre gigantes

Assim como o polo paraibano, o polo do Ceará atraiu muitas grandes empresas do Sul do País em busca de incentivos fiscais. Entre Grendene e Vulcabrás, porém, uma pequena notável chama a atenção. Fundada em julho de 2010, a Via Malibu iniciou suas atividades com nove colaboradores e um projeto para produção de 10 mil pares semanais de chinelo de dedo injetado na cidade de Juazeiro do Norte. No início, o grupo cearense que hoje conta com 103 colaboradores e produz 30 mil pares de chinelos de PVC e 25 toneladas de placas de EVA para atender tanto o setor calçadista como outras indústrias, teve alguns desafios a serem superados.  A sócia-administrativa da empresa, Rosana Maria de Oliveira Ribeiro, cita o lançamento do produto no mercado como um deles. “Tivemos, no início, que concorrer com grandes marcas já existentes e consolidadas. Hoje, são novos desafios, como incertezas políticas, instabilidade econômica e um cenário pandêmico, no qual fomos obrigados a conviver com um novo normal e nos readaptar sem muitas certezas dos passos que poderíamos dar.”

Rosane comenta que apesar dos desafios impostos pelo contexto, alguns aspectos auxiliam a produção e os negócios do grupo. “Estamos em uma região privilegiada em diversos sentidos, principalmente quando se trata da localização geográfica, com as principais capitais nordestinas em um raio de 600 km e fácil acesso a dois grandes portos, Pecém e Suape. A região oferece, ainda, mão de obra qualificada, incentivos fiscais e facilidade no escoamento dos nossos produtos”, pontua, ao falar dos motivos que levaram a empresa a se instalar em Juazeiro do Norte.

Há 11 anos no mercado, a Via Malibu realizou sua primeira exportação no ano de 2018. E, atualmente, as vendas para o mercado externo representam 10% da produção. O continente sul-americano é o principal mercado das exportações da marca, que também está presente em países do Oriente Médio e da Europa. Rosane finaliza salientando que a calçadista busca um processo de melhoria contínua. “Assim, estamos sempre aprimorando nosso processo produtivo, bem como nossos colaboradores, para entregar um produto de excelência, sempre pensando no meio ambiente e em atingir novos mercados”


Vizzia: de solados a sandálias

Também do polo calçadista cearense, a Vizzia Sandálias foi criada em 1996, em Juazeiro do Norte. Tendo iniciado suas atividades com 14 funcionários que produziam solados para indústrias calçadistas da Região, com o passar dos anos a empresa passou a produzir suas próprias sandálias, do baby ao adulto. Hoje são mais de 340 funcionários produzindo mais de 15 mil pares todos os dias, 345 mil por mês. “Estamos operando com 75% da nossa capacidade, que é de produzir muito mais”, conta o presidente da empresa, Glaidston Gonçalves de Lucena, que ressalta que a empresa chegou a trabalhar com apenas 30% da capacidade instalada durante o ano passado. Em 2021, no entanto, a palavra de ordem da Vizzia é retomada. “Só não é maior porque está faltando mão de obra e os insumos estão mais parcos e com custos elevados”, diz. 

Segundo o empresário, não havendo mais surpresas com relação à Covid-19, a estimativa é recuperar as perdas até o final do ano.