Notícias

Empreendedorismo é o Brasil que dá certo

Muito se fala dos desafios do empreendedorismo no Brasil. De fato, não são poucos. Além de uma elevada carga tributária, somam-se custos com uma logística cara e ineficiente, um Estado inchado e com grande ingerência na economia, a oscilação cambial, entre tantos outros obstáculos. Porém, empreendedores mostram um outro lado, um lado que coloca o Brasil entre os países que mais empreendem no mundo. O Brasil que dá certo. Conforme levantamento da Global Entrepreneurship Monitor, realizada com o apoio do Sebrae, o Brasil ocupa a sétima posição no ranking mundial de empreendedorismo, com quase 32% da população adulta atuando na área. Quando comparado a países que compõem o BRICS - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul -, o Brasil é a nação com a maior taxa de empreendedorismo A China tem 26,7%, a Índia 10,2%, a África do Sul 9,6% e a Rússia 8,6%. O número de brasileiros que já têm uma empresa, ou que estão envolvidas na criação de uma, é superior, também, a países como Estados Unidos (20%), Reino Unido (17%), Japão (10,5%), Itália (8,6%) e França (8,1%).

 

O fato de resistir a todos os problemas enfrentados, desenvolvendo os seus negócios, concede ao empreendedor uma dose de resiliência importante. Nesta matéria especial, contaremos a história de empreendedores que, mesmo diante de todas as dificuldades, mantêm seus negócios apostando em calçados inovadores e nichos de mercado diferenciados.


 

Invitto: slow fashion e fidelização

Fundada em 1999 pelo empreendedor Marco Aurélio Kehl, a Invitto, de Novo Hamburgo/RS, se especializou na chamada slow fashion, voltada para o mercado de calçados femininos classes A e B. Produzidos artesanalmente com matérias-primas de alta qualidade, com destaque para couros exóticos como o de Python, ao longo da história a empresa sempre procurou estar na vanguarda da moda nacional. Na coleção de Verão passada, por exemplo, foram criados calçados femininos revestidos com fios de seda e tingidos com cascas de cebola.

 

A produção fica entre 30 e 40 pares diários, que são comercializados em cerca de 30 pontos de venda no Sul e interior de São Paulo e no e-commerce da Invitto. A exportação, que já foi parte dos negócios da empresa, por enquanto aguarda novos projetos. Trabalhando sem estoque, apenas por encomenda, a empresa possui um nicho de mercado fidelizado e que já fez com que, em 2021, crescesse 10% ante 2019. “Em 2020, assim como o setor, sofremos muito pela paralisação das atividades”, diz Kehl.

 

Antes de fundar a Invitto, o empresário conta que passou por diferentes setores na indústria calçadista. Aos 14 anos começou trabalhando na produção e foi para o departamento de contabilidade da mesma empresa um ano depois. “A contabilidade, aliás, me ajudou muito quando criei o meu próprio negócio”, frisa. Após passar pelo departamento, Kehl foi para a importação e depois foi morar nos Estados Unidos, um sonho antigo. Lá, onde permaneceu durante um ano e meio, trabalhou em uma empresa que importava roupas da Ásia e ganhou ainda mais bagagem. De volta ao Brasil, ficou pouco tempo e partiu para a Holanda, para trabalhar na área de vendas de uma empresa que desenvolvia calçados para serem produzidos no Brasil ou Portugal, no modelo de private label (com a marca do cliente). “Nessa empresa tive o meu primeiro contato com a parte de desenvolvimento de calçado, que mais tarde seria a minha atividade”, recorda. Em meados dos anos 1990, saiu da empresa holandesa e retornou ao Brasil, onde voltou para a indústria de calçados, dessa vez em departamentos de vendas para o mercado doméstico. Com a empresa fechando as portas em 1998, resolveu criar sua própria coleção, que daria vida à Invitto um ano depois. “Depois de sofrer com a criação de uma linha de preço médio, resolvi entrar no mercado de maior valor agregado com a Invitto, de onde não saímos mais”.

 

Com vasta bagagem no setor calçadista, Kehl destaca que são muitos os desafios, mas que a atividade é gratificante. “Produzir no Brasil é difícil. Temos dificuldade quanto à questão tributária, mas o que mais atrapalha, ainda mais para o nosso nicho, é a falta de mão de obra qualificada. Meus montadores têm mais de 50 anos. Não existe uma renovação. A saída, segundo ele, é o investimento em formação e sobretudo em campanhas para atrair jovens para a atividade. Apesar das dificuldades, o empreendedor se mantém otimista. “A nossa consumidora é fidelizada e sabe que, comprando nossos produtos, está comprando qualidade e durabilidade. Existe um grande mercado a ser desbravado”, conclui.


 

Perky: calçado brasileiro com sotaque castelhano

Foi em 2011 que o argentino nascido em Buenos Aires, Rodrigo Casas, decidiu trazer um produto típico gaúcho e castelhano para terras brasileiras, mais especificamente para Porto Alegre/RS. Filho de pai argentino e mãe brasileira, antes de se tornar empreendedor, Casas chegou a se formar em Jornalismo, onde atuou na área esportiva no país vizinho. “Sempre quis ter um negócio próprio. Em 2008, conheci a Gabriela - sócia e companheira - no Brasil e depois de algumas pontes áreas resolvi vir morar definitivamente aqui e lançamos a marca Perky”, conta. Há dez anos, a produção era integralmente de alpargatas, mas a experiência no rigoroso inverno gaúcho fez com que a empresa optasse por aumentar o mix para produtos fechados. Hoje, mesmo sendo as alpargatas o carro-chefe da marca, a Perky desenvolve também botas, sandálias, tênis vulcanizados e acessórios voltados para um público de 25 a 35 anos.

Com uma produção terceirizada de 55 mil pares por ano, das quais exporta cerca de 7% para Argentina, Uruguai, República Checa, Chile e Inglaterra, a empresa tem nas suas lojas franqueadas o principal canal de distribuição. No total, as quatro lojas Perky - duas em Porto Alegre/RS, uma em Gramado/RS e uma em Búzios/RJ — respondem por mais de 50% do faturamento, número que deve aumentar ainda mais a partir da ampliação do projeto de franquias da marca em 2022. “Estamos desenvolvendo um projeto para expansão das lojas em quiosques”, conta.

Casas ressalta que existem muitos obstáculos para se empreender no Brasil, sendo o principal deles a dificuldade de acesso ao crédito. Para ter uma ideia, a primeira experiência, em 2012, quando a marca recém havia sido lançada, está sendo paga até hoje. “Precisávamos de capital para investir na empresa e não conseguimos crédito. Tivemos que hipotecar nosso apartamento para conseguir R$ 80 mil e estamos terminando de pagar a dívida agora, que já foi para mais de R$ 200 mil”, recorda. O baque, no entanto, não foi suficiente para segurar o ímpeto da Perky, que foi crescendo na medida em que seus produtos ficavam mais conhecidos - e reconhecidos - no mercado.

Outro golpe para a Perky foi o ano de 2020, quando a empresa viu seu faturamento cair quase 60%. “Ficamos com as lojas físicas fechadas boa parte do ano. O que salvou o ano foi o nosso e-commerce”, comenta. Em 2021, com a retomada do mercado e a normalização do comércio físico, a empresa já cresceu 30%, índice que ainda não fará com que se chegue ao período pré-pandemia, em 2019. Porém, o otimismo está presente. Em 2022, a meta é crescer, inclusive, sobre 2019. “Estamos otimistas com o projeto de expansão das franquias, que já era para ter iniciado no passado, mas que foi adiado em função da pandemia”, conclui.


 

Tnin: sustentabilidade nos pés dos pequenos

Com dois anos e meio de fundação, a Tnin, de São Paulo/SP, é uma startup do universo calçadista. Especializada no universo infantil, a marca traz produtos infantis com materiais ecologicamente corretos no estilo plimsolls, calçados de cabedal de lona popularizados nos anos 1990 e que vem retornando à moda mundial.

 

Trabalhando com consultoria no setor calçadista desde 2009, Juliana Lawson resolveu colocar a teoria em prática ao conhecer o inglês Darren Enthoven. A empresária conta que a criação da marca partiu da percepção de um gap no mercado de produtos infantis, carente de calçados voltados para o nicho da sustentabilidade. “Nos ajudou, também, o fato de que no Brasil encontramos muitos fornecedores de materiais sustentáveis”, recorda.

 

Atualmente com uma produção de 2,5 mil pares mensais, a Tnin exporta cerca de 30% dela para Estados Unidos, Chile, Singapura, China, Itália, entre outros países. Apesar das dificuldades enfrentadas durante a pandemia do novo coronavírus, Juliana revela que a empresa recém criada cresceu mais de 70% em relação a 2020. Para o resultado, foram adotadas duas estratégias importantes, o foco maior no e-commerce próprio e as exportações, que favorecidas pelo fator cambial devem seguir crescendo em 2022. Juliana conta que, para 2022, a expectativa é de crescimento e que a empresa vem buscando parcerias para ampliação dos investimentos. “Felizmente, já temos uma parceria super bacana já encaminhada. Divulgaremos em breve”, adianta.


 

Urban Flowers: ativismo e negócios juntos

Criada em 2014 a partir de uma filosofia de vida de seus fundadores, o veganismo, a Urban Flowers, de Campo Bom/RS, utiliza materiais sem origem animal na sua produção. Atualmente com 10 funcionários e parceiros locais para produção, a marca produz 500 pares por mês, além de acessórios como mochilas, bolsas e carteiras, que distribui em e-commerce próprio e em uma loja parceira especializada em produtos slow fashion de Santa Catarina. Sócio da empresa, ao lado de sua companheira Cecília Weiler, Patrick Lenz, destaca que, mais do que produtos, a marca tem o objetivo de divulgar a causa do veganismo, que não é somente ecológica, mas também social. “Os criadores da empresa são veganos. Trouxemos essa questão orgânica para o dia a dia do negócio”, conta, ressaltando que isso é percebido pelo público e que a marca precisa passar essa verdade em suas relações. O impacto ecológico é percebido e premiado. No ano passado, conforme levantamento interno, foram recuperados mais de 7,7 mil metros quadrados de tecidos, 1,1 tonelada de borracha foi reciclada e foram utilizados mais de 3,3 toneladas de papelão reciclado. Atualmente, a empresa possui o Certificado Lixo Zero, Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB).

 

Para que a marca não tenha apenas o produto final vegano, Lenz diz que existe uma relação muito próxima com os fornecedores, estimulando para que toda a cadeia produtiva seja efetivamente sustentável. Entre os principais desafios para a criação da marca, o empreendedor cita justamente a dificuldade na relação com os fornecedores, que no início não entendiam muito bem o conceito do veganismo. “Hoje existe uma conscientização maior, eles nos procuram, trocam informações”, comenta.

 

A comunicação com os consumidores é outro trunfo da empresa. “Buscamos uma relação próxima com o nosso público. Caminhamos na corrente inversa aos chatbots, queremos tornar a relação mais humanizada possível”, conta, acrescentando também a importância do trabalho nas redes sociais. Além da relação marca/cliente, Lenz destaca que existe uma preocupação em passar o conceito do veganismo, ajudando o público a identificar não somente calçados realmente veganos, mas até mesmo produtos da indústria alimentícia. Mesmo com todo o ativismo vegano, o empreendedor ressalta que recentemente a marca fez um levantamento para a atualização da “persona” e percebeu que existe uma gama crescente de consumidores não veganos, que têm identificação com as pautas da sustentabilidade.

 

Assim como para o setor calçadista em geral, o ano de 2020 foi bastante difícil para a Urban Flowes. Lenz recorda que a empresa chegou a fechar durante alguns meses e que só não teve um impacto pior por causa do apoio dos próprios consumidores. “Criamos vales, que as pessoas adquiriam para receber os produtos depois”, lembra. A ajuda do público fez com que a empresa resistisse e a queda fosse bem menor do que a prevista inicialmente. “Perdemos 15% da nossa produção e, em 2021, conseguimos recuperar as perdas. A partir de 2022 temos a expectativa de voltar a crescer”, projeta, ressaltando que a empresa tem capacidade produtiva para ampliar a produção para até 800 pares mensais.


 

Dobra: DNA inovador

Carteiras de tyvek, um tipo de papel especial super resistente utilizado pela NASA. Foi com esse produto que os jovens da Dobra, de Montenegro/RS, começaram a se destacar no mercado brasileiro a partir de 2016. Cinco anos depois, a empresa ampliou o mix de produtos e, além das carteiras, hoje oferece uma gama completa de acessórios, tênis, camisas e até mesmo produtos de decoração. Tudo utilizando a mesma matéria-prima e sob encomenda, já que a empresa não trabalha com estoques. A inovação da Dobra não está apenas no produto. Na Dobra, o modelo de gestão é horizontal. São 14 pessoas envolvidas, todas no mesmo nível de hierarquia e com o mesmo salário. Além disso, as estampas dos produtos são todas fruto de cocriação, pois no site a Dobra mantém mais de mil artistas cadastrados com suas criações.

 

Um dos sócios, Guilherme Massena, conta que a Dobra começou a partir de um trabalho de faculdade. “Venho de uma família de empreendedores, sempre tive vontade de ter meu próprio negócio. Foi a partir de um trabalho de faculdade, no qual criamos uma carteira de papel, que nasceu a Dobra”, recorda. Segundo Massena, a partir do trabalho foram alguns anos de atualização, com estudos sobre nova economia, economia colaborativa, revolução pós-digital, entre outros temas. Já para a construção dos produtos, foram realizados testes. “Nosso modelo de criação é MPV (produto mínimo viável, sigla em inglês). Ou seja, testamos a viabilidade e lançamos no mercado”, diz.

 

Segundo Massena, são inúmeros os desafios do empreendedorismo no Brasil. O maior é a burocracia, que engessa a criação de novos negócios. “Hoje até está mais fácil, especialmente para o enquadramento como Microempreendedor Individual (MEI), mas ainda existe uma enorme complexidade tributária que atrapalha o desenvolvimento de novas empresas”, avalia, ressaltando que a Dobra realiza lives nas redes sociais para auxiliar os novos empreendedores com dicas sobre abertura de empresas, modelos de negócios, entre outras informações.

 

O modelo de negócios diferenciado, mais voltado para o ambiente digital, fez com que a empresa sentisse menos o impacto da pandemia do novo coronavírus. Segundo o empreendedor, no entanto, mudou um pouco o público, antes da pandemia formado em grande parte por jovens profissionais liberais, designers e estudantes. A pandemia fez com que, na medida da retomada dos trabalhos em ambiente físicos, aumentassem as encomendas de empresas para presentear seus colaboradores com produtos inovadores e exclusivos. “Em 2021, no comparativo com a pré-pandemia, em 2019, crescemos 5% a 10% em faturamento. Já o crescimento dos negócios B2B (business to business) ficou entre 15% a 20%”, conta Massena.

 

Para o próximo ano, o empreendedor destaca que a empresa deve seguir investindo na geração de conteúdos com impacto social, monetizando o que for possível. Também buscará fortalecer o portfólio de produtos e estreitar o relacionamento com o seu público por meio da criação de um bar na empresa, onde as pessoas poderão confraternizar e trocar experiências.


 

Pesh: foco no mercado infantil

Criada para atender o mercado infantil com calçados divertidos e preços competitivos, a Pesh, de São Paulo/SP, é um case clássico de empreendedorismo. Juliana Mader, uma das sócias da empresa, é formada em Administração de Empresas, com MBA na área, e vem do mercado financeiro. Trabalhou neste setor até entrar para um e-commerce especializado em produtos infantis. Lá, se apaixonou por esse universo e junto da sócia, Thaís Drummond, criou a marca Pesh em 2017.

 

Atualmente com uma produção de 10 mil pares mensais, a Pesh transformou uma operação baseada na relação B2B (business to business), de fornecimento para o varejo físico, para um modelo de venda direta quase que totalmente digital. Segundo a empreendedora, 70% do faturamento da empresa vem do canal on-line. A mudança no modelo veio justamente durante a pandemia do novo coronavírus, com as dificuldades no varejo físico e o incremento vertiginoso do comércio eletrônico. “Já tínhamos a ideia de e-commerce desde o princípio da Pesh, mas pelo histórico de trabalho em e-commerce resolvemos esperar. A pandemia acelerou esse processo e ano passado resolvemos investir nesse canal”, conta.

 

A decisão se mostrou acertada e a marca, depois de uma queda de mais de 50% no ano passado, já cresceu mais de 100% em 2021 e pretende dobrar o crescimento no próximo ano, ultrapassando os números da pré-pandemia. Para os próximos anos, Juliana projeta aumentar ainda mais a participação do digital no faturamento da marca. Entre os benefícios, Juliana cita o risco menor com a inadimplência e o relacionamento mais direto com o consumidor.

 

Outra tendência identificada pela Pesh é a sustentabilidade. Em abril deste ano, a empresa lançou mais uma marca, a Zoez. São calçados adultos unissex produzidos a partir de matérias-primas sustentáveis. “É um mercado difícil, bastante nichado, mas que percebemos que vem em crescimento. Ainda pequena, o objetivo é aumentar a fatia de produtos dessa linha no nosso mix nos próximos anos”, projeta a empresária.


 

FOTOS