Abicalçados participa de audiência pública da USTR sobre tarifaço

Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos tem até o dia 15 de julho para decisão 

A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), por meio de sua gerente de Relacionamento e Negócios, Letícia Sperb Masselli, participou da audiência do Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR) que discutiu a aplicação de novas tarifas às exportações brasileiras. A participação aconteceu na manhã do dia 7 de julho, no escritório do U.S. International Trade Commission (ITC), em Washington, onde os depoimentos foram ouvidos. Além de Letícia, argumentaram contra a imposição de novas tarifas representantes locais de entidades congêneres do setor, como Matt Priest, da Footwear Distributors & Retailers of America (FDRA); Beth Hughes, da American Apparel & Footwear Association; e Julia K. Hughes, da United States Fashion Industry Association. Também participaram varejistas norte-americanos, representados por Peter Grueterich, do JPT Group LLC Bernardo Footwear; e Lauren Gray, da Dillard’s Inc. 

Segundo Letícia, a argumentação da Abicalçados, dos representantes da indústria, do varejo, de importadores e de distribuidores norte-americanos foram muito técnicas, conduzidas de forma clara e organizada. “As explanações das partes locais foram todas favoráveis ao Brasil, apontando, sobretudo, o impacto tarifário no país, que não possui produção significativa de calçados”, explicou. 

Na sua argumentação, a gerente ressaltou o fato de que os Estados Unidos têm sido, historicamente, o principal destino das exportações de calçados brasileiros, representando uma parcela significativa das vendas externas do setor. “Este fluxo comercial beneficia não apenas os exportadores brasileiros, mas também importadores, marcas, varejistas e consumidores dos Estados Unidos, dada a interdependência produtiva e comercial entre os dois países, o que torna o Brasil um fornecedor estratégico em um mercado estruturalmente dependente de importações”, disse.

Ainda conforme Letícia, o Brasil desempenha um papel relevante e complementar na cadeia de suprimentos de calçados dos Estados Unidos. “A indústria calçadista brasileira trabalha em cooperação com importadores, marcas e varejistas locais no desenvolvimento de produtos e coleções, especialmente em segmentos que exigem menor escala, maior variedade de modelos, prazos de entrega mais curtos - particularmente devido à maior proximidade logística - e maior capacidade de resposta à demanda. Todos esses são atributos relevantes para o abastecimento eficiente do mercado estadunidense, principalmente para pequenos e médios varejistas”, destacou.

Alternativa à Ásia
Letícia disse, ainda, que o Brasil também representa uma alternativa estratégica com escala produtiva significativa no Hemisfério Ocidental, apoiando os esforços dos Estados Unidos para diversificar o fornecimento e construir uma cadeia de suprimentos mais resiliente e geograficamente mais próxima. Atualmente, o Brasil é o quinto maior produtor de calçados do mundo e o maior produtor fora da Ásia, tendo produzido, em 2025, 847 milhões de pares.

Embora os Estados Unidos importem calçados de várias origens, a gerente ressaltou que a oferta permanece fortemente concentrada na Ásia. Em termos de volume, a China detém a maior fatia, com 48%, seguida pelo Vietnã (28%) e Indonésia (10%). 

Impacto local
Uma tarifa adicional sobre os calçados brasileiros reduziria a competitividade de uma fonte de abastecimento ocidental, formal, confiável e complementar. Isso afetaria diretamente importadores, marcas e, especialmente, pequenos e médios varejistas locais, cujos modelos de negócio dependem de pedidos mais fragmentados, maior variedade de produtos e ciclos de produção e entrega mais curtos. Os Estados Unidos consomem mais de 2 bilhões de pares de calçados por ano e produzem aproximadamente 20 milhões de pares, o equivalente a cerca de 1% de todo o seu consumo doméstico.  “Por essas razões, uma tarifa adicional sobre os calçados brasileiros não ajudaria a tratar dos atos sob investigação. Pelo contrário, tenderia a aumentar custos, reduzir a diversidade de fornecimento e reforçar a concentração das fontes de abastecimento dos Estados Unidos em origens já dominantes, indo na contramão dos interesses norte-americanos em diversificação, resiliência e segurança da cadeia de suprimentos”, concluiu Letícia. 

Conforme dados elaborados pela Abicalçados, no primeiro semestre de 2026, foram exportados para os Estados Unidos 5,6 milhões de pares por US$ 82,25 milhões, quedas de 3,6% em volume e de 23,6% em receita no comparativo com o mesmo intervalo do ano passado. 

Entenda
O USTR publicou, no dia 2 de junho, uma recomendação para uma nova tarifa adicional de 25% sobre as exportações brasileiras aos Estados Unidos. Embora a decisão, tomada no âmbito da investigação sob a Seção 301, seja passível de reversão, preocupa a atividade. 

A decisão foi submetida a consulta pública até 1º de julho. Nos dias 6 e 7 de julho, foi realizada a audiência pública com as argumentações de autoridades, industriais brasileiras e norte-americanas e representantes dos importadores e varejistas norte-americanos. A USTR tem até o dia 15 de julho para concluir a investigação e publicar a decisão final.