Atualmente, o Brasil detém apenas 0,5% do mercado de importação de calçados nos Estados Unidos, número que pode avançar com as novas tarifas
A indústria calçadista brasileira, que tem nos Estados Unidos seu principal destino internacional, enxerga o “tarifaço” de Donald Trump, anunciado ontem (2), por dois pontos distintos. Por um lado, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), a tarifa adicional de 10% para produtos brasileiros pode abrir uma janela de oportunidades diante do imposto maior anunciado para concorrentes asiáticos. Já por outro lado, a tarifa elevada para os grandes produtores mundiais também pode provocar uma inundação de calçados daquele continente em mercados importantes para o Brasil e até mesmo no mercado doméstico nacional.
O presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, cita que o pacote de tarifas anunciado, por exemplo, taxa a China em mais 34%, o Vietnã em mais 46% e a Indonésia em mais 32%. “São tarifas muito mais elevadas do que as aplicadas para o Brasil, o que pode tornar o nosso calçado mais competitivo nos Estados Unidos. Por outro lado, além de a medida diminuir o consumo naquele país, também deve fazer com que os asiáticos busquem alternativas para desovar sua produção. E, entre essas alternativas, certamente teremos o próprio mercado brasileiro e países para onde exportamos nossos calçados”, avalia.
Novos impostos
Conforme dados levantados pela Inteligência de Mercado da Abicalçados, atualmente o imposto de importação para calçados brasileiros nos Estados Unidos é, em média, 17,3%. Ou seja, com o adicional de 10%, a tarifa passará a 27,3%. Já China, Vietnã e Indonésia, que têm um market share de 58%, 24% e 8% no país norte-americano, respectivamente, também pagam uma média de 17,3%. Com os adicionais, os países passarão a pagar 51,3%, 63,3%, 49,3%, respectivamente. “Enfim, o tarifaço deve deixar o preço brasileiro mais competitivo nesse primeiro momento”, acrescenta Ferreira. Atualmente, o Brasil detém apenas 0,5% do mercado de importação de calçados nos Estados Unidos, número que pode avançar com as novas tarifas. “Na principal feira do setor no Brasil, a BFSHOW, teremos uma noção mais exata do impacto desses novos impostos no mercado. Esperamos muitos compradores norte-americanos no evento, em maio”, projeta.
Alerta
Se por um lado, o calçado brasileiro ficará mais competitivo em relação aos seus concorrentes asiáticos, preocupa a Abicalçados uma possível invasão de calçados produzidos naqueles países no mercado nacional. “Por isso, torna-se ainda mais importante a adoção de mecanismos antidumping contra Vietnã e Indonésia, para evitar concorrência desleal no varejo brasileiro”, explica. Segundo ele, o problema já foi levado para o governo federal e agora será reforçado com as autoridades.
Exportações e importações
No primeiro bimestre de 2025, as exportações de calçados brasileiros para os Estados Unidos somaram 1,93 milhão de pares e US$ 37,17 milhões, incremento de 0,6% em volume e queda de 4,5% em dólares em relação ao mesmo ínterim de 2024. Atualmente, 21% de toda a receita gerada pelas exportações nacionais são provenientes dos Estados Unidos.
Impulsionada pelos países asiáticos China, Vietnã e Indonésia - de onde vêm mais de 80% dos calçados que entram no Brasil -, as importações do setor seguem em elevação. No primeiro bimestre, entre as principais origens das importações, aparece a China, de onde vieram 2,68 milhões de pares por US$ 9,25 milhões, quedas de 2,8% e de 3,5%, respectivamente, ante o primeiro bimestre de 2024. Na sequência, aparecem o Vietnã (2,5 milhões de pares e US$ 47,9 milhões, incrementos de 24,2% e de 9,2%, respectivamente) e Indonésia (1,48 milhão de pares e US$ 23,5 milhões, altas de 47,25 e de 37%, respectivamente).